A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito
promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.

 





A historiografia tradicional brasileira estabeleceu uma divisão cronológica da história do país com base em marcos factuais tal qual a famosa divisão quadripartite da história global. No caso da História do Brasil três grandes períodos, tendo por base os regimes políticos, despontam: Colônia (1500-1822), Império (1822-1889) e República (1889-Hoje). Contudo, sabe-se que tal divisão, acaba sendo bastante arbitrária quando nos debruçamos com atenção sobre os diversos contextos históricos nacionais e regionais, na medida em que as rupturas e continuidades nos vários âmbitos - social, cultural, econômico, político, regional, etc. -, extrapolam tais limites temporais preestabelecidos. Além disso, diversos outros fatores devem ser colocados em questão quando abordamos a história de nosso país, além do marco oficial de mudança de determinado regime político, inclusive se levarmos em consideração os entrelaçamentos e repercussões de fatos ocorridos em nosso território com aqueles que tiveram curso em territorialidades outras.

Cientes disso, o número 33 da Navigator traz aos leitores o dossiê temático intitulado “O Poder Naval e as disputas pelo território no Brasil Colonial (1500-1808)”, organizado pelo Prof. Dr. Bruno Romero Ferreira Miranda (UFRPE; IAHGP). Apesar, de considerarmos necessário relativizar e problematizar a divisão da história brasileira em marcos temporais fixos, entendemos a necessidade didática para tal, de modo que optamos por lançar uma proposta que mantivesse a noção tradicional da divisão temporal do Brasil Colonial, mas, ao mesmo tempo, realizasse uma pequena inflexão ao adotarmos o recorte cronológico de tal dossiê sobre o Brasil Colonial de 1500 a 1808 (data da chegada da Corte lusitana ao Brasil e momento de início de muitas transformações em determinados pontos do território). Tal dossiê, composto por quatro artigos, traz ao público contribuições que abordam os conflitos entre povos europeus pelo território da América Portuguesa, enfatizando os aspectos navais em suas múltiplas facetas. Não obstante o dossiê ter ficado aberto a contribuições de discussões a respeito de um vasto período temporal de três séculos, os artigos que o compõem correspondem às décadas do século XVII envoltas pelos conflitos que envolveram portugueses, espanhóis e as Repúblicas Unidas dos Países Baixos, conflitos estes desenvolvidos no contexto da União Ibérica.

Seguem-se à Seção ‘Dossiê’ os artigos pertencentes à seção de artigos de fluxo contínuo, nos quais valiosos debates de diferentes períodos da história naval brasileira se fazem presentes. Abre a Seção ‘Artigos’, o texto de José Renato Ferraz da Silveira “Afflavit Deus et dissipantur: o conflito entre a Espanha de Filipe II e a Inglaterra de Elizabeth I”, no qual o autor aborda o confronto internacional entre Espanha e Inglaterra, nos reinados de Filipe II e de Elizabeth I no século XVI, destacando a ascensão inglesa, a decadência espanhola e as estratégias político-militares adotadas por ambos os países no período. Na sequência, com o artigo “Abordagem aos Encouraçados no Tagy (1868)” damos um salto de quase 300 anos e saímos do contexto europeu para uma análise dos combates de abordagem ocorridos durante a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, o autor do texto, Aldeir Isael Faxina Barros, focaliza seu olhar no ano de 1868, quando a fortaleza de Humaitá se encontrava prestes à rendição, ou abandono, ante o cerco imposto pelos aliados, discorrendo a respeito dos planos e execução de abordagem aos navios brasileiros postados em Tagy por parte dos paraguaios. O terceiro artigo da Seção, intitulado “Memórias em disputa: A Revolta da Armada em Joaquim Nabuco e Felisbelo Freire”, vem da lavra de Mustafá Reis Dalate, e se propõe a refletir as condições políticas presentes na passagem do Império para a República, tendo por mote os ecos da Revolta da Armada (1893-94), pouco tempo depois de sua debelação, fazendo um paralelo entre os escritos antagônicos a respeito do conflito publicados em 1896 por dois importantes pensadores políticos do período.

Adentrando o século XX temos dois artigos que trazem abordagens das Grandes Guerras Mundiais. No primeiro deles, a historiadora Jéssica de Freitas e Gonzaga da Silva traz no trabalho “‘120 dias separados’: A História do 2º Tenente Joaquim Martins Pereira a bordo da Divisão Naval em Operações de Guerra”, a análise epistolar de missivas escritas em 1918 a bordo do Tender Belmonte pelo Segundo-Tenente Joaquim Martins Pereira para sua esposa Maria do Carmo Pastori Pereira, quando tal oficial compunha a tripulação da Divisão Naval em Operação de Guerra da Marinha do Brasil (DNOG), durante a 1ª Guerra Mundial. Finalmente, fecha a Seção o artigo sob o título “Entre Pescadores e Canhões, a Guerra chegou ao Litoral: a Experiência dos Soldados na Transformação da Artilharia de Costa Brasileira (1942-1945)”, dos pesquisadores Sandro Teixeira Moita e Rogério de Amorim Gonçalves. Tal artigo, aborda o desenvolvimento da artilharia de costa no litoral brasileiro no contexto da Batalha do Atlântico na Segunda Guerra Mundial, enfatizando o cotidiano de tensão, medo e pressão vivido por milhares de soldados e civis que receberam a missão de proteger a costa brasileira de possíveis invasões alemãs e italianas vindas do mar.

Fechando o número 33, Felipe Sabino Crispim Maia assina a contribuição à Seção ‘Documento’, com a apresentação do Theatrum Orbis Terrarum, obra de autoria do cartógrafo brabantino Abraham Ortelius, considerado o primeiro atlas do período Moderno e publicado pela primeira vez no ano de 1570. Tal obra faz parte do acervo da Biblioteca da Marinha do Brasil, localizada na cidade do Rio de Janeiro e subordinada à Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, e é um dos quatro exemplares da primeira edição em latim de que se sabe da existência em todo o mundo.

Boa leitura!

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