A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.





Edina Laura Costa Nogueira da Gama
Capitão de Mar e Guerra (RM1-T). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval. Especialista em História Militar pela Unirio.
Membro efetivo do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).
Assessora técnica da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM).


O sesquicentenário da Batalha Naval do Riachuelo como motivação para uma revisita sobre a atuação da Marinha Imperial na Guerra da Tríplice Aliança contra o governo do Paraguai, convite feito pela Revista Navigator aos seus leitores – professores, pesquisadores e alunos de história –, superou as expectativas. A resposta traduziu-se em artigos preciosos para a historiografia brasileira, em especial à história marítima e naval, com novas leituras, renovação dos estudos históricos, abordagens inéditas e originais para o tema. E embasado em teorias e metodologias contemporâneas que revitalizam as discussões políticas, sociais e econômicas do período, promovendo ainda a interdisciplinaridade do campo da história marítima e naval.

Neste segundo número do Dossiê sobre a atuação da Marinha Imperial na Guerra da Tríplice Aliança contra o governo do Paraguai temos dez artigos. E que tratam da historiografia, das operações militares, da tecnologia e da logística da maior guerra havida ao sul do continente americano. E ainda perpassam sobre os impactos socioeconômicos, culturais e políticos do Brasil de então – trazendo o conflito e suas resultantes – e onde a história marítima e naval brasileira se vê inserida.

Francisco José Corrêa Martins apresenta um panorama geral das ações navais ocorridas no Rio da Prata após a Passagem de Tonelero (1851) e antes da Batalha Naval de Riachuelo (1865), fatos menos visitados pela historiografia naval brasileira, e que trouxeram consequências para a guerra da Tríplice Aliança.

Quanto às questões operativas e estratégicas há três textos. Aldeir Isael Faxina Barros busca demonstrar a utilização das chatas artilhadas durante a guerra, desde sua estreia no campo de batalha, passando pela sua utilização pela Marinha do Brasil e o encerramento de sua operacionalidade devido às mudanças nas características das lutas. Ricardo Cabral faz uma análise comparada entre duas batalhas fluviais ocorridas na Guerra Civil Americana e na Guerra da Tríplice Aliança; no caso, a Batalha Naval de Memphis e a Batalha Naval do Riachuelo, abordando aspectos convergentes nas estratégias, táticas e meios navais utilizados. Com Luiz Augusto Rocha do Nascimento, há a afirmação de que a invasão paraguaia na província brasileira do Rio Grande do Sul foi detalhadamente planejada, sob coordenação do presidente paraguaio, Francisco Solano Lopez, e onde a transposição de rios e arroios se apresentou como aspecto importante, levando a conclusão de que brasileiros e paraguaios tiveram nos rios a chave das operações bélicas.

O historiador argentino Luis Fernando Furlan aponta para o papel histórico da Ilha de Cerrito durante a Guerra da Tríplice Aliança contra o governo do Paraguai, mediante as atividades logísticas empreendidas pela Marinha do Brasil e a ação política e militar do governo da República da Argentina em suas relações com o Paraguai.

Na análise de aspectos tecnológicos da Guerra, temos três artigos. Fernando Ribas De Martini considera a Batalha Naval do Riachuelo sob o ponto de vista da corrida pela tecnologia naval dos dois lados beligerantes. E que se iniciara nos anos imediatamente antes da guerra, com a busca do uso de navios encouraçados para suas forças navais, já visando um combate naval naquele teatro de operações. Pedro Marinho e Laura Fontana buscam refletir acerca da distinção entre a engenharia militar e a engenharia civil no Brasil oitocentista, com a criação da Escola Central no Rio de Janeiro e do Instituto Politécnico Brasileiro, onde este se apresenta como “um espaço fundamental para discussão tecnológica acerca da Guerra do Paraguai”. Já Sylvio dos Santos Val, com seu texto, e empregando os termos aftermath e nucleação, relaciona a expansão da Marinha durante a Guerra do Paraguai como parte de um processo anterior, e que foi aprofundado pelo conflito, resultando em relevantes mudanças institucionais na Força Naval no século XIX. A abordagem histórica do texto não se atém apenas às questões tecnológicas da construção dos navios de guerra, mas também à gestão da construção de navios mercantes, atuando na aplicação de recursos em empresas privadas de navegação, afirmando-se na área marítima do País, e onde o Arsenal do Rio de Janeiro era o epicentro da tecnologia naval do Brasil.

No trato de uma análise historiográfica à época da Guerra, Luiz Fernando Tosta Barbato apresenta um artigo baseado no jornal Dezenove de Dezembro, importante periódico do Paraná oitocentista. Mediante análise das notícias publicadas em pleno conflito por este periódico, observa os impactos que a Guerra do Paraguai, da qual a Batalha do Riachuelo foi um de seus pontos altos, tiveram sobre os sentimentos nacionais brasileiros; e mais, sobre as províncias interiores do País. E, ainda, como este fato contribuiu para levar às áreas não envolvidas diretamente com o conflito “os sentimentos de pertencimento à até então nação brasileira em formação”. Há ainda a releitura da obra de Emilio Carlos Joudan (Guerra do Paraguay) realizada por André Fertig e Ismael Vincensi, vista por eles como um exemplo da historiografia tradicional acerca da Guerra do Paraguai. Deste modo, os autores trabalham as produções do conhecimento histórico sobre o tema ao longo do tempo, e as suas correntes historiográficas, detendo-se “à história militar tradicional”. E para explicá-la, fazem uso da “ficção do factual”, teoria desenvolvida por Reinhart Koselleck acerca deste tipo de narração de eventos e atuações individuais, tão comum à história do Brasil dos oitocentos. Deste modo, o texto em lide se mostra uma referência no entendimento da história militar do período.

Nesta edição temos a resenha crítica do Livro A Logística Naval na Marinha Imperial Durante a Guerra da Tríplice Aliança Contra o Governo do Paraguai. Rio de Janeiro: Editora Biblioteca do Exército, 2015. 336p, autoria de Mônica Hartz de Oliveira Moitrel. Apresentada por Wagner de Souza, coloca esta dissertação de Mestrado como representativa de uma “nova visão da historiografia militar, ao avançar sobre a questão do desenvolvimento institucional, de sua historicidade, influenciado por aspectos, tais como, os econômicos, sociais e políticos, que levam, em determinado tempo histórico, a práticas arraigadas, bem assim a transformações na maneira de agir e pensar dos agentes dessas mesmas instituições, notadamente nos momentos de inflexão como ocorreu o período das ações no Paraguai, no período entre 1864-70”.

Por último, a Seção Documento, um relato das experiências do Capitão James H. Tomb na Marinha Brasileira (1865-1870) durante a Guerra do Paraguai. Foi publicado originalmente na Revista Marítima Brasileira (Jan-Mar de 1964), pp. 39-54, com tradução e notas de Eulália M.L. Lobo. Ao ler este documento, o leitor terá acesso às impressões de um engenheiro americano, veterano da Guerra da Secessão, acerca de alguns personagens da Guerra do Paraguai – políticos e militares –, às atuações da Marinha do Brasil em alguns episódios do conflito, bem como às atividades que exercia na remoção de torpedos do Rio Paraguai.

E, mais uma vez, nossos agradecimentos a todos os autores que escolheram a Navigator para apresentar suas pesquisas. Se as expectativas foram superadas, foram graças aos Senhores.
Aos nossos leitores, uma boa leitura.