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Guiana Francesa, janeiro de 1809: articulações para a construção governativa conforme as primeiras ordenanças


Ivete Machado de Miranda Pereira
Doutoranda pela École des Hautes Études en Science Sociales – Paris.
Bolsista da Capes – Proc. no BEX 1773/13-5


RESUMO
Em janeiro de 1809 a Guiana Francesa foi invadida por tropas portuguesas provenientes do Grão-Pará, com ajuda naval britânica. Este estudo pretende acompanhar o início da administração portuguesa na Guiana, precisamente o mês de janeiro de 1809, por meio das seis primeiras Ordenanças do governador interino, Manoel Marques, consultadas nos Archives Nationales de Paris. Em diálogo com essa documentação, analisaremos População e Administração Provisória da Colônia de Caiena e a Capitulação firmada entre o governador francês vencido e os conquistadores, documentos do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pretende-se compreender como o governo português organizou de imediato o novo território observando o que ficara estipulado na rendição.

PALAVRAS-CHAVE: Guiana Francesa; administração; Ordenanças

ABSTRACT
In January 1809 the French Guiana was invaded by Portuguese troops from Grão-Pará, helped by the British Navy. This study intends to follow the beginning of the Portuguese administration in Guiana, precisely in the month of January 1809, through the first six Ordinances of the provisional governor, Manoel Marques, consulted in the Archives Nationales of Paris. In dialogue with this documentation, we will analyze Population and Temporary Administration of Cayenne’s Colony – Manoel Marques’s authorship – and the Capitulation signed between the defeated French governor and the conquerors, documents from the collection of the National Library of Rio de Janeiro. It is intended to understand how the Portuguese government immediately organized the new territory observing what had been stipulated in the surrender.

KEYWORDS: French Guyana; administration; Ordinances

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

“Inferno verde”, “guilhotina seca”, sinônimo de morte para o metropolitano, a colônia francesa da América Meridional, Guiana Francesa, era colônia de plantation escravagista desde o século XVII e, portanto, o eixo essencial da economia era a produção a ser exportada para a metrópole. Escassamente povoada no início do século XIX, sua população ocupava somente uma estreita franja costeira que ia do Rio Iracoubo, a oeste, ao Rio Oiapoque, a leste. Segundo o recenseamento de 1807 a população total de 15.483 indivíduos era composta de 13.474 escravos, 1.040 “pessoas de cor livres” e 969 brancos – não compreendida a tropa. Os índios não estão representados nesse recenseamento, mas no censo do ano de 1789 eles perfaziam a soma de 8062. O mais importante e numeroso grupo linguístico da região era o dos Caraïbe, que na época da chegada dos europeus vivia no litoral entre o Approuague e o Suriname, seguido pelo grupo Arawak, pouco representado. Essa população indígena, pequena e dispersa no início da colonização, sofrerá uma diminuição drástica a partir do contato com os europeus. Assim, uma das características da Guiana Francesa é a grande modéstia de sua população que, durante o século XVIII, apresentou crescimento de menos de 3 mil indivíduos.

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