A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.





O infeliz general português: Antônio Carlos Furtado de Mendonça e a invasão castelhana da Ilha de Santa Catarina no século XVIII

Adriana Angelita da Conceição
Graduação e mestrado realizados na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e doutorado na Universidade de São Paulo – USP. Atualmente, realiza estágio de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, com apoio da Fapesp.


RESUMO
Em fevereiro de 1777 apareceu nas proximidades da Ilha de Santa Catarina uma imponente esquadra castelhana que tomou o território sem encontrar resistência. Deste modo, dialogando com a história da cultura escrita, a proposta deste texto é analisar as representações escritas que o general e governador militar da ilha, Antônio Carlos Furtado de Mendonça, produziu para se defender da culpa referente à invasão. Neste sentido, se estudará o envolvimento do Vice-Rei Marquês do Lavradio na preparação militar da ilha e nos desdobramentos que levaram o general a julgamento – acusado como um dos principais responsáveis pela perda do território. Sem a intenção de levantar culpados e/ou inocentes, será de interesse a prática de escritas destes governadores ultramarinos, elaboradas e articuladas diante da necessidade de se afastar da desonrosa perda de um território do rei.

PALAVRAS-CHAVE: cultura escrita; invasão castelhana; governadores ultramarinos

ABSTRACT
In February 1777 it appeared in the proximities of the Santa Catarina island an imposing Spanish fleet which, not finding any resistance, took the territory. Therefore, dialoguing with the history of written culture, the proposition of this article is to analyze the written representations that the general and military governor of the island, Antônio Carlos Furtado de Mendonça, produced to defend himself of the faultregarding the invasion. In this sense, we will study the involvement of the viceroy marquis of Lavradio in the military preparation of the island and the unfolding that brought the general to trial – accused as one of the main responsible for the lost of the territory. Without the intention of raising guilty and/or innocents, we are interested in the writing practice of these ultramarine governors, elaborated and articulated before the necessity of standing back from the shameful lost of a territory of the king.

KEYWORDS: written culture; Spanish invasion; ultramarine governors

Nos primeiros meses de 1777 a costa meridional brasileira passou por uma perturbadora e inabitual movimentação náutica de ibéricos. As embarcações castelhanas cumpriam uma ordem real e se conduziam a um território luso. Por mar, buscando contar com o apoio dos ventos e das marés, algumas naus portuguesas se mantinham em guarda, outras carregavam cartas com notícias e ordens decisivas, referentes ao considerado mais importante ponto de paragem da América portuguesa meridional – o porto da Ilha de Santa Catarina, localizado na capitania de Santa Catarina. A agitação por mar indicava que um confronto estava por acontecer, e mesmo com as preocupações dos portugueses, o pior não pôde ser evitado. No final de fevereiro, os castelhanos desembarcam no norte da Ilha de Santa Catarina e por terra tomaram a Vila de Desterro, na parte central, sem que os canhões, portugueses ou castelhanos, fossem utilizados. A guerra que a esquadra do Rei Carlos III anunciou ao atravessar o Atlântico para enfrentar as fortalezas da ilha construídas por ordens dos Reis D. João V e D. José I não aconteceu, mas o território português foi tomado pelos castelhanos.

(Veja o artigo na íntegra na versão PDF)