A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.





Esta nova edição da Revista Navigator apresenta ao leitor um conjunto original de pesquisas sobre os séculos XVI a XIX congregadas no dossiê intitulado “Defesa, política, trajetórias sociais e fluxos mercantis no Antigo Regime”. Tal dossiê reúne artigos de doutores, doutorandos e um mestrando de diferentes instituições e regiões do País, desde Maranhão e Pernambuco até Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Beneficia-se, também, com artigos advindos da Holanda, Portugal e França, nesse último caso, nomeadamente de brasileiros que realizam doutoramentos na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris. Tem-se aqui, portanto, uma revista multifacetada, não apenas pela sua larga abrangência temática, mas também pela pluralidade institucional dos autores envolvidos.

Em geral, os artigos refletem ou abarcam questões relevantes para a historiografia especializada sobre o Brasil colonial ou mesmo a Época moderna. Sem a pretensão de ser exaustivo, mas apenas para citar alguns exemplos, não custa ressaltar que o dossiê faz emergir discussões voltadas para os instrumentos e as condições da conquista dos territórios; o sistema de mercês e a formação de lealdades; a construção de discursos políticos; as trajetórias individuais e de governação; e as relações entre os poderes locais e centrais.

Por outro lado, percebe-se também como estas mesmas pesquisas guardam consonância com aquilo que alguns chamam de “Nova História Militar”. Afastam-se assim de uma narrativa linear e diacrônica das questões militares para inseri-las em um universo amplo, complexo e inter-relacionado de forças e movimentos políticos, econômicos e sociais.

Os primeiros artigos publicados, em síntese, tratam das invasões de franceses e holandeses nos séculos XVI e XVII. Sem dúvida, um tema clássico da historiografia brasileira, mas revisitado à luz de novos problemas. Assim, o doutorando Marcello Felipe Duarte (UERJ) tangencia a França Antártica e o conturbado contexto da contrarreforma para enfatizar a importância da catequese jesuítica no momento da conquista do Rio de Janeiro. As alianças entre portugueses e indígenas agregavam não apenas capacidade militar aos primeiros, como também afastavam o perigo huguenote francês.

Já Helidacy Correia (UEMA) se debruça sobre a conquista do extremo norte, região estratégica no Atlântico, porque, dentre outras razões, poderia viabilizar acesso às minas do Potosi. Expulsos os franceses, em 1615, os “conquistadores” da terra logo instituíram a câmara e a administração periférica, numa expectativa de receberem mercês. A autora examina ainda o valor simbólico das cerimônias de posse da fortaleza de São Luís.

Depois, Benjamim Teensma (Universidade de Leiden) examina os “atrevidos” arbítrios de Luiz Álvarez Barriga (também traduzidos pelo autor),1que procurava apontar caminhos para a expulsão dos holandeses de Pernambuco. Não descura da conjuntura crítica subjacente em que papeis foram elaborados. Tema recente da historiografia internacional, mas ao que parece típico da cultura política ibérica seiscentista, a literatura de arbítrios indicava um modo de os vassalos participarem da gestão da monarquia, aconselhando e advertindo o monarca sobre o melhor modo de governo das “repúblicas”.

Se Teensma apreende a problemática holandesa a partir de um ângulo ibérico, Bruno Miranda (UFRPE) inverte a perspectiva e explicita as dificuldades enfrentadas pela Companhia das Índias Ocidentais para garantir a disciplina de suas tropas. Anote-se que Miranda nos permite uma valiosa aproximação com arquivos holandeses, além de ampliar as explicações possíveis para a derrocada holandesa em Guararapes.

Em seguida, a propaganda da Guerra da Restauração (1640-1668) foi objeto de investigação por Daniel Carvalho (EHESS). Por meio das páginas de “O Mercúrio Portuguez”, um periódico mensal redigido pelo próprio secretário de Estado português, Carvalho aborda temas caros à historiografia política recente. Imbricando notícias da guerra com estratégias discursivas, o autor retraça um dos momentos militares mais notórios da Restauração portuguesa.

A persecução da trajetória do mestre de campo Manuel de Freitas da Fonseca, figura central no processo de ocupação de Montevidéu, é o fio de condução da narrativa de Victor Hugo Abril (UFF). Tendo como pano de fundo a dinâmica da guerra e o cotidiano de uma governação, discute e pondera as relações entre o poder central e os locais no século XVIII.

Outra trajetória social desenrolada nas questões do sul é apresentada por Adriana Angelita da Conceição (UNICAMP). Dessa vez, o foco recai sobre o “infeliz” general Antônio Carlos Furtado de Mendonça, vinculado à invasão de Santa Catarina pelos castelhanos, consumada em fevereiro de 1777. A autora se detém ainda nas construções retóricas da “defesa” que o general representou à rainha D. Maria I, que revela, em última instância, uma série de desentendimentos entre ele, o vice-rei e o governador.

Fernanda Cordeiro de Almeida (UFPR) e Cleverson Faust (Universidade Nova de Lisboa) analisam, na sequência, os esforços empenhados para potencializar a logística do estaleiro de Recife, na segunda metade do século XVIII. Demonstram como, num contexto de significativas mudanças na arquitetura naval, impulsionadas pela circulação das técnicas na Europa, era preciso dotar os estaleiros com madeiras e pessoal próprios à construção. Desnecessário insistir aqui na importância da construção naval para um império marítimo.

Concluindo o dossiê, Ivete Machado Pereira (EHESS) investiga a organização e instalação da estrutura governativa portuguesa na Guiana Francesa após sua conquista, em 1809. Assim, acompanha as primeiras diretrizes portuguesas para administração do território recém-incorporado, evidenciando também os pactos tecidos pelo governador português com os cidadãos que até então pertenciam à monarquia hispânica. Para tanto, recorre ao cruzamento da documentação disponível nos Archives Nationales de Paris com outros documentos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Apresentados muito sucintamente estes trabalhos, resta claro que a Revista Navigator oferece resultados de pesquisas originais que estão em plena consonância com o que de mais atual se produz na historiografia internacional. Articulam refinado tratamento aos recortes temáticos, metodologia, fontes e problemas analíticos suscitados.

Por fim, registro o agradecimento aos autores que escolheram a Navigator para divulgar suas pesquisas. Em especial, ao Professor Benjamin Teensma que, além de contribuir com um artigo e uma tradução, participou da organização deste valioso dossiê.

Boa leitura!

Marcello José Gomes Loureiro
Doutorando em História Social (PPGHIS-UFRJ)