A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.






Apresentação do Dossiê


José Miguel Arias Neto
Professor de História Contemporânea. Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em História Social – UEL e Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação História e Regiões – Universidade do Centro-Oeste do Paraná. Coordenador do Grupo de Pesquisa Estudos Culturais, Política e Mídia. Bolsista Produtividade 2 CNPq.

Renato Jorge Paranhos Restier Junior
Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), especialista em História Militar pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), sócio titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, é autor do livro Antítese da Civilidade: Poder Naval, Pensamento Político e Guerra no Segundo Reinado (1850-1876).


O dossiê da edição volume 9, número 18 da Revista Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil, intitulado “Imprensa Militar”, expressa algumas das mudanças teóricas e metodológicas por que têm passado os estudos da guerra, dos militares e das instituições militares nos últimos anos. Tais objetos, negligenciados dos estudos históricas em quase todo século XX, passaram a despertar atenção da academia brasileira1 na virada para o século XXI. Esse crescimento do interesse pela História Militar se dá de modo quase concomitante ao desenvolvimento de novas perspectivas historiográficas sensíveis ao social, ao cultural e ao político – compreendido aqui como território das relações humanas – e, consequentemente, acompanhada pela pluralidade de abordagens, possíveis pela aproximação da História com as teorias sociológicas, com a antropologia, com a comunicação e com a arte, entre outros campos de conhecimento. Aproveitando esse embalo, a Historiografia Militar tem se renovado, quer pela apropriação de novas ferramentas de análise, tanto teóricas quanto metodológicas, quer pela constituição de novos problemas e novos objetos.

Essa postura dialógica possibilita também novas preocupações nos estudos sobre a guerra e a ressignificação de objetos tradicionais da história militar. No campo da metodologia, a adoção de fontes históricas de diferentes naturezas e procedências extrapolou a simples análise dos relatórios operacionais e dos documentos da burocracia institucional.

Assim, o dossiê “Imprensa Militar” adquire grande relevância, posto que além de revelar fontes praticamente desconhecidas, quer pelo público especializado, quer pelo grande público, representa a constituição da produção intelectual representativa de uma categoria (ou de grupos distintos no seio de uma mesma categoria) expressa pela imprensa periódica como objeto de análise do historiador. Essas fontes, terreno fértil para a compreensão de posicionamentos políticos, de ideias, conflitos, contextos socioeconômicos, desenvolvimento técnico e/ou tecnológico militar em diferentes contextos históricos, bem permitem problematizar o estudo da memória, das representações e demais conjuntos simbólicos das “sociedades militares”2 no tempo.

Inicia o debate o artigo de Adriana Barreto de Souza que aborda os descontentamentos de um grupo de militares com o modelo político consolidado pelos conservadores na década de 1850 e suas propostas de modernização meritocráticas de gestão do Império por meio do jornal O Militar. No mesmo contexto, Fernanda de Santos Nascimento debruça-se sobre o periódico O Militar Brioso, de linguagem mais incisiva que o anterior, em que são explicitadas as diversas insatisfações de militares do Exército Imperial. Em seguida, Luiza das Neves Gomes analisa, por meio dos periódicos O Soldado e o Marinheiro e a Gazeta Naval, a reação de setores de militares da Armada Imperial com o estado material e de pessoal que se encontravam as forças de mar após a Guerra da Tríplice Aliança. Charles Klajman, além de se deslocar do contexto monárquico, adota abordagem que se distancia das relações Estado e Forças Armadas ao enfocar em sua análise os militares da área de saúde do Exército que buscavam posicionamento destacado no meio da sociedade médica e militar. Encerrando o dossiê, José Miguel Arias Neto explora a Revista Marítima Brasileira, primeiro periódico militar naval do Brasil e um dos primeiros no mundo, aponta a profusão de fontes da imprensa militar existentes em arquivos do Rio de Janeiro e desenvolve um debate teórico em que pontua possibilidades de abordagens dos periódicos militares oitocentistas.

O presente dossiê é um convite à reflexão sobre o estado atual dos estudos dos militares e das instituições militares a partir da utilização dos periódicos e também de tomar os periódicos militares em si sob o conceito de Imprensa Militar como objeto de reflexão dos historiadores. Para além disso, aponta para outros horizontes teóricos e metodológicos ao enfatizar a fecundidade das pesquisas na área da história militar.

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