A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.





O Militar e a elaboração de um projeto alternativo de modernização para o Brasil (1854-1855)

Adriana Barreto de Souza
Professora associada do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRRJ. Atualmente, integra o corpo de pesquisadores do Pronex – Dimensões e Fronteiras do Estado Brasileiro; do Núcleo de Estudos da Política (Nuep/UFRRJ); e coordena, em parceria com Celso Castro, o Laboratório de Estudos sobre Militares (LEM/CPDOC-FGV). É autora de livros e artigos científicos sobre a temática “militares”, dentre os quais destacam-se: O Exército na consolidação do Império: um estudo histórico sobre a política militar conservadora, distinguido com o Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, e publicado em 1999; e Duque de Caxias: o homem por trás do monumento, publicado pela Civilização Brasileira em 2008.


RESUMO
Na década de 1850, a Corte do Rio de Janeiro vivia dias de otimismo. Após anos de lutas, o projeto conservador consolidava-se, pondo fim às rebeliões provinciais. É nesse contexto que o jornal O Militar é editado, realizando em suas páginas um debate substantivo e crítico à nova ordem. A historiografia localiza nesses debates a origem das formulações intervencionistas que marcariam o século XX brasileiro. O objetivo desse artigo, no entanto, é inserir esses debates no campo de referências políticas da época. Acredito que os artigos de O Militar expressavam o descontentamento de determinados setores do Exército com governo, o que os teria levado a reeditar o projeto conservador. Defendiam uma modernização fundada em um sistema disciplinar-meritocrático, que apresentava o Exército no legítimo condutor do processo civilizacional brasileiro.

PALAVRAS-CHAVE: Imprensa Militar; Exército; Modernização

ABSTRACT
In the 1850s, the Court of Rio de Janeiro lived days of optimism. After years of battles, the conservative project was consolidated , ending the provincial revolts. In this context, the newspaper The Military is edited, performing on its pages a very consistent and critical debate on the new order. The historiography traditionally locates in these debates the origin of interventionist formulations that would mark the twentieth century in Brazil. The purpose of this article, however, is to insert these debates in the field of political references of their time. I believe that the articles of The Military expressed the discontent of certain sectors of the Army with the government, which would have led them to review the conservative project. These sectors advocated a modernization founded on a system that should be based on meritocracy and discipline, with the Army as the legitimate guide of the Brazilian civilizing process.

KEYWORDS: Military Journal; Army; Modernization

Na década de 1850, a Corte do Rio de Janeiro vivia dias de otimismo. Os homens livres do império passavam a se reconhecer como partícipes de um mundo civilizado. Esses anos não se distinguiam apenas pela estabilidade política que o “gabinete da conciliação” consagrava, pondo fim às rebeliões provinciais. O progresso era sentido a todo momento, fosse pelas notícias estampadas nos jornais locais, quando do desfile das tropas argentinas, uruguaias e brasileiras pelas ruas de Buenos Aires, as tropas vitoriosas na derrubada de Rosas, fosse pelo simples ato, comum nas noites de verão, de abrir as janelas das casas e sobrados da Corte. A partir de 1854, essa atitude corriqueira colocava os antigos habitantes da região diante de um novo fenômeno da modernidade, o sistema de iluminação a gás.Esta e outras obras da engenharia moderna difundiam o sentimento de se viver, enfim, uma nova era.

Os jornais de grande circulação se adequavam aos novos tempos. A tradicional cisão entre imprensas política e literária parecia já não mais fazer sentido.

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