A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.





Temperança a bordo: o Reverendo Metodista Daniel Kidder e sua pregação contra o consumo do álcool durante suas viagens pelo Império do Brasil

Sergio Willian de Castro Oliveira Filho
Primeiro-Tenente (T), Mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará. Atualmente é doutorando em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

 

RESUMO
No século XIX o Brasil vivenciou uma grande presença de estrangeiros em seu território. Um destes estrangeiros foi o Reverendo Metodista norte-americano Daniel Parish Kidder. Este viajante escreveu relatos contendo suas impressões sobre este território e seus habitantes. Tal artigo busca perceber a história marítima a partir de uma análise dos discursos e experiências deste estrangeiro protestante com relação a seu olhar sobre o consumo de bebidas alcoólicas que através de seus escritos construíram um amplo jogo de relações de alteridade com o Brasil.

PALAVRAS-CHAVE: Temperança, Protestantismo, História Marítima
ABSTRACT
In the nineteenth century, Brazil experienced a large presence of foreigners in its territory. One of those foreigners was the American Methodist Reverend Daniel Parish Kidder. This traveler wrote reports containing his views on this territory and its inhabitants. This article seeks to understand the maritime history from the analysis of arguments and experiences of this foreign Protestant regarding his views on the consumption of alcoholic beverages, which through his writings built an extensive collection of alterity relations with Brazil.

KEYWORDS: Temperance, Protestantism, Maritime History

Geralmente encontrávamos o barco escolhido para as celebrações rigorosamente arrumado e decorado com todo gosto, com bancos para toda a assistência. Como era bonito ver os escaleres repletos de marinheiros virem, cada um por sua vez, amarrar ao costado do navio e descarregar a sua carga humana; homens que, não fora esta oportunidade, estariam em terra à cata de diversões, expostos a todas as tentações do vício e aos ardis do pecado! Quão sublimes eram os sentimentos que tais cenas inspiravam, principalmente em lugar tão lindo como o Rio de Janeiro. O céu brilhante, as montanhas altaneiras, o vai e vem das ondas não poderiam deixar de impressionar o espectador; mas quando além dessa beleza ambiente nos era dado observar numa reunião de marítimos a alma coletiva com a atenção fixa nas cousas eternas, traindo-se aqui por um arfar mais forte, ali por uma lágrima furtiva, acolá por uma resolução tomada.

Durante o século XIX uma inserção constante de viajantes e imigrantes estrangeiros em terras brasileiras foi desencadeada. Tais viajantes possuíam motivações das mais diversas na vinda ao Brasil, como as de caráter científico, mera curiosidade turístico-aventureira, participação em missões religiosas (de cunho católico ou protestante), motivações comerciais, ofícios político-administrativos. Devido a este movimento de sujeitos rumo à América do Sul durante os oitocentos, Barreiro acredita então que este momento pode ser encarado como uma “espécie de redescoberta e revisitação do Brasil pelos viajantes”.)

(Veja o artigo na íntegra na versão PDF)