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Cosmologia e experiência em Portugal no século XVI

Pedro Campos Franke
É mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento sobre as teorias cosmológicas e as navegações portuguesas do século XVI pelo mesmo programa.


RESUMO
Este artigo pretende levantar algumas questões preliminares sobre o papel das teorias cosmológicas no contexto da expansão marítima portuguesa do século XVI. Desafiados pelas dificuldades de navegação em mar aberto e pelas grandes distâncias que passaram a ser percorridas pelas suas naus, os portugueses buscam no conhecimento astrológico – antes destinado à medicina diagnóstica e à elaboração de prognósticos – os fundamentos teóricos para a navegação astronômica. Longe ainda da derrocada final do estatuto científico da astrologia divinatória, os campos de saber que hoje conhecemos como astrologia e astronomia se confundiam, e conviviam em publicações voltadas ao grande público, como as Chronografias ou Reportórios dos tempos – escritas por cosmógrafos e astrólogos de renome em Portugal.

PALAVRAS-CHAVE: cosmologia, expansão ibérica, astrologia

ABSTRACT
This article aims to raise a few preliminary questions about the role of cosmological theories in the context of Sixteenth Century Portuguese maritime expansion. Chalenged by the adversities of open sea navigation and by the long distances to be sailed, the Portuguese have called upon astrological knowledge – until then related specially to medical diagnosis and prognosis – for developing the theoretical foundations of astronomic navigation. Still centuries away from the last downfall of divinatory Astrology’s scientifical status, the areas of thought today know as Astrology and Astronomy were then permeable to each other, and coexisted in publications destined to a large group of readers, such as the texts know as Chronografias or Reportórios dos tempos, written by renowned portuguese cosmographers and astrologers.

KEYWORDS: cosmology, astrology, iberian expansion

A entidade epistemológica a qual nos acostumamos denominar “ciência moderna” teve suas bases fundadas sobre uma série de tradições intelectuais heterogêneas, ora complementares, ora concorrentes. Os séculos XVI e XVII foram um período particularmente intenso no que diz respeito a disputas e tensões entre diferentes modelos de compreensão do universo e do papel do homem neste meio.

Ao longo da Idade Média, o aristotelismo se consolidou como o projeto cosmogônico mais sólido e eficaz aos olhos dos filósofos naturais e teólogos que viviam o mundo das universidades europeias. Mesmo após os movimentos de resgate de outros textos e autores da Antiguidade clássica, que marcou os últimos séculos do período medieval e principalmente o Renascimento, a filosofia peripatética continuou a estender sua influência no pensamento ocidental até, pelo menos, o fim do século XVIII; e a fundamentar diversas tradições científicas, muitas das quais vieram mais tarde a ser superadas e expurgadas do conjunto das ciências tidas como “verdadeiras”. Um exemplo particularmente forte destas tradições é o da visão astrológica do cosmos – perspectiva pela qual os fenômenos terrestres são influenciados ou até determinados pelos movimentos e influxos celestes.

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