A Revista NAVIGATOR é dirigida a professores, pesquisadores e alunos de História e tem como propósito promover e incentivar o debate e a pesquisa sobre temas de História Marítima no meio acadêmico.





A África e os africanos nas fabulações cartográficas

Letícia Destro
Mestranda em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro


RESUMO
No presente artigo propusemo-nos a traçar parte do processo referente à invenção da África e dos africanos apresentado pelas representações cartográficas. Quais foram as formas e as características que viriam a dar origem a este específico fenômeno, bem como os caminhos e desvios que o trariam para a esfera do ser e pensar ocidental, foram algumas questões que buscamos desbravar.

PALAVRAS-CHAVE: História da África, cartografia, imaginário

ABSTRACT
In this article, we set out to trace invention process of Africa and Africans as presented by cartographical representations. What were the forms and characteristics that would originate this specific phenomenon, as well as the paths and detours that would take it to the ocidental sphere of being and thought are some of the questions we raise.

KEYWORDS: African History, cartography, imaginary

Há algum tempo circulava pela internet um curioso mapa. Diferentemente de outros, esse não tem preocupações de localizações geográficas. Sua função é representar uma suposta “visão norte-americana” do mundo. Nele, o ponto central são os EUA representados pela sua bandeira. Os demais países e continentes aparecem identificados por legendas que supostamente os caracterizariam como, por exemplo, a vasta porção de terra roxa com os dizeres “café, sexo, drogas” representando a América do Sul. O enorme espaço vazio em preto e branco que, apenas ao sul, possui diamantes é o continente africano. O vinho, perfume e espaguete da região azul-escura pertencem aos países europeus, entretanto a Inglaterra é o 52o estado dos EUA. Na área laranja lê-se “petróleo e guerra” referindo-se aos países do Oriente Médio. Já o marrom, os bêbados derrotados, é uma alusão aos russos. A Oceania, em azul, é apenas uma Ilha Grande que talvez fosse o Havaí.

Esse exemplo contemporâneo utiliza para a sátira uma das características mais interessantes dos mapas antigos: a imaginação como forma de conceber a realidade. Os suntuosos e ornamentados mapas-múndi medievais também apresentavam, a partir da iconografia, sua visão de mundo. Utilizam, muitas vezes, da criatividade principalmente para representar o incompreendido. Mas longe de ser algo irreal, o mundo imaginabilis tinha sua plena realidade e era, aliás, a condição para o conhecimento. É sobre essas representações imaginárias ou não do mundo que estamos tratando neste trabalho que nos ajudam a compreender, em específico, o processo de “invenção” da África.

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